E agora?

 

Ecl anular 1 03 out 05

Vejo voar a pomba branca e espero a vossa mensagem.
Mas vós estais longe – e não chegam notícias.
……………..
Escuto o pranto e o temor das crianças octanas.
Mas vós estais longe – e elas perdem pais e vidas.
……………..
Fazei saltar e rir de felicidade o meu coração.
Fazei cantar as mães e que as crianças brinquem em paz.
– Passagens do canto do trovador Huggonet enviado pela dama Corba a D.Pedro II de Aragão no século XII.
Narrativa de Jorge Molist no seu romance
O REGRESSO DOS TÁRTAROS

E agora?

Também tu. Também eu.
Também o teu e meu vizinho
do sexto ou quarto andar.
Também esses quantos que beijavas,
tangias, acolhias, afagavas,
faziam saltar e rir de felicidade
o teu e o meu coração.

Que eu vejo esvoaçando miríadas de letras
sem pátria nem destino – e busco-lhes o sentido.
Que eu escuto esse pranto dos usados e recentes
rechaçando a solidão – e recuso dar-lhe  a mão.
Que eu cheiro a dor ensopada em profecias
buscando a redenção – e esse dia tarda a chegar.
Que eu percorro solitário o meu caminho
com ganas de tocar – e só o vento me afaga.
Que eu acalento o credo no Homem Bom,
que desafia o sono e o medo – e vislumbro a salvação.
Que eu apalpo o gel, o sabão e a aurora
na busca da verdade – e vejo-a a chegar.

Que tu e eu em histórias ao pôr do sol
fazemos sorrir as crianças de felicidade.
Que a partilha de bens entre odiados
gerando novos próximos – eu vejo aproximar.
Que um riso aberto, mesmo que distante
vale mais que aquele abraço –  que no antes distraído.
Que multidões de heróis de máscara e batina
desafiando a morte – são seiva da esperança.
Que as redes digitais, buscando novas fugas
à fome e à solidão – são o mundo em convulsão.

E eu creio
que esta avalanche de dores, de mortes, de vidas partilhadas,
de fomes, de prantos, solidões, de heróis sem nome,
sem sono, sem medos nem títulos de jornal,
de angústias, de dúvidas, descrença, de histórias de encantar,
são fermento salvífico que leveda um novo pão
que alimentará um Homem Novo, que parte e reparte
por quantos têm fome de amor e de alimento.

E eu creio que quando isto terminar,
com o teu e meu vizinho
do sexto ou quarto andar
e esses quantos que beijavas,
tangias, acolhias, afagavas,
e faziam saltar e rir de felicidade
o teu e o meu coração.
um Novo Mundo gerará.

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