E pensei na casa onde nasci

Porque hoje é sábado,
parei a pensar o que hoje pensei.
E pensei na casa onde nasci.

Não, não e não.
Não fugi. Não morri. Não desisti.
Sete sábados parei para pensar.
E fiz sossego para mudar.
Que o caminho da mudança
acontece no desassossego
do silêncio.

E foi calado
que pus de lado
como pensam os que pensam.

Que a hora é de deixar falar
quem não pode esperar.

Tribunal de Portalegre decide
que a entrega de casa ao banco liquida dívida.
DN de 27 Abril 2012.

Porque vi luz nesta notícia,
eu tive um sonho
no meio do nada.
Deixar adonde estava
e como estava
a casa onde nasci.

Fiz contas de somar
e de poupar.
E vi que as notas que contava
dariam para o sonho.
E até sobrava.

Desinstruído e só
deixei a eles dizer,
em letras pequeninas,
aquilo que valia.

Com que alegria
gritei aos sete ventos:
pagueeei o preeeço juuuuusto.

E é que quem ouviu
até acreditou.
E até eu.

Até ao dia
em que o impossível
sucedeu.

Não sei dizer
nem como nem porquê
fui testemunha da vinda dum tsunami
que tudo demoliu.
Acordei dependurado pelos pés.

Perdi emprego,
amigos e progresso.
Promessas de sucesso.

Fiz contas de somar
e de poupar.
E vi que não chegava.

Mas sempre tinha a casa.
Deixara ao banco dizer o que valia
e esse preço chegava,  até sobrava.

Pedra por pedra
deixei-lhe a casa à porta.
Julgava eu, final do desenlace.

E fui descomprimir.

Até que a conta chegou.
Das lautas. Das chorudas.

Desinstruído e só
busquei pedra por pedra
as pedras que deixara
à porta do credor.

Restavam pedras soltas.
Que a lei inexorável do mercado
levara cruel  e inconsciente
as de maior valor.

Da casa onde nasci
restava apenas
um sonho de criança
sem travo de esperança.

Até que a notícia aconteceu.

Tribunal de Portalegre decide
que a entrega de casa ao banco liquida dívida.

Sereno e consciente
do nada ou quase nada
que restava,
fui devorar  maresia
na praia logo em frente
à casa onde nasci.

Ao ver  que me levavam,
pedra por pedra,
aquilo que restava
bramei ao oceano:
até que enfim.
Letra mesquinha e desdenhosa
já não manda.
Que sem pedras,
nem telhas, nem terraços
ninguém me rouba os sonhos que vivi.

 

 

 

 

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