Sem mais. Tal qual sou.

Porque hoje é sábado
parei a pensar o que hoje pensei.
E olhei-me. Sem mais. Tal qual sou.

Num muro sujo da minha rua encontrei, fascinado, este retrato.
Nem datado nem assinado.
Que genial maneira de recuperar tanto lixo que nos rodeia.
E que vontade de usá-la como desforra contra o lixo que alguns poucos
nos atiraram.

Descobri este retrato,
olhei-me e reconheci-me.

Sem mais. Tal qual sou.
Um punhado de ilusões.
Uma mão cheia de fantasia.
Um balouçar
entre o tédio e a alegria,
entre o dever e a utopia,
entre a farsa e a euforia.
Com muito trambolhão
à mistura
e também
alguma sabedoria.

Sem mais. Tal qual sou.
Um monte de contradições.

Tudo isto revestido
com um hábito de monge,
à Franciscana,
trazendo por baixo
camisa e gravata
à semana,
camisa sem gravata
em dia do Senhor,
chapéu de coco
com gente importante,
um ar distraído
com gente distante,
semblante soturno
em dia de dor,
fingindo um ar terno

Mil vezes tentei reagir.

Certo dia
peguei o touro pelos cornos,
dei um murro na mesa,
defini os contornos
das minhas contradições
e gritei:

Viva a liberdade
de querer o que não sei.

No dia seguinte
acordei virado
para o mesmo lado,
com a mesa sem marcas
do murro que dei,
sem rasto no peito
dos cornos do touro,
buscando o tesouro
no trono do rei.

Vesti de novo
o hábito de monge,
sem nada por baixo.

E no meio do povo
que nada entendia
da minha alegria
cantei:

Viva o poeta em dia de dor.
Viva a gravata em noite de amor.
Viva o chapéu em dia de semana
e morra tanta gente imponente
vestida à Franciscana.

Poema Autoretrato publicado em Ponto Final

 

 

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