E pensei num cesto repleto de promessas

Porque hoje é sábado
parei a pensar no que hoje pensei.
E pensei num cesto repleto de promessas.

E pensei num cesto repleto de promessas_2

Ceux qui sont morts ne sont jamais partis:
Ils sont dans le sein de la femme
Ils sont dans l’enfant qui vagit,
et dans le tison qui s’enflamme.
Birago Diop. Poeta senegalês.
Citado por Maria Manuela Salvador Cunha
na sua tese de doutoramento:
Mia Couto – um narrador poeta

Ecce Homo

É chegada a hora
do silêncio.
Do calar as desculpas,
as escusas, os pretextos,
de olhar-me por dentro,
olhos nos olhos,
e assumir por inteiro quanto sou.
Que o tempo do embuste
terminou.

No virar a esquina
da rua que se segue,
talvez da próxima,
ou da seguinte
ou talvez daquela ali
um pouco mais distante,
ver-me-às convertido
num ponto, num traço,
num rasto no espaço,
num sopro da brisa que passa,
num gesto de carinho,
num ninho de cegonha,
num pensamento que conforta,
numa chama que aquece.
Mas vir a ser NADA, nunca me verás.

Olharás sem me ver
carregando ao ombro
um cesto repleto de promessas,
de ditas, de fortunas, de quimeras,
espalhando pétalas de rosas
encarnadas
sobre tudo quanto é morte
à tua volta.
Sobre tantos que vês tombar
cravados de estilhaços,
sobre quantos fugitivos
arrojados ao Mediterrâneo
e sobre os que desistem
da busca de pão
e sobre todos que nos deixam
porque à vingança dizem não
e sobre os que arrastam
os trapos pela rua
com a casa destroçada
e sobre os que partem
e nos fazem ficar sós
e sobre mim, sobre ti e todos vós,
seja qual for o lado de que estão.
Espalhadas as pétalas de rosas
encarnadas
sobre esse mundo em colisão
iremos reinventar a paz.

Sei bem que na busca dessa paz
tu e eu seguiremos
caminhos diversos
consoante as letras que esvoaçam
e tombam no branco de neve
do teu e meu papel.

Estou a ver-te escolheres
consoantes, pronomes, conjunções
das duras, austeras, escabrosas,
que ferem, que tiram o sono e o sonho,
mas convencem
na verdade que contêm.

No meu papel verás esvoaçar
vogais suaves, ditongos, advérbios
que soarão a sonhos, desvelos, utopias.
Serão tão frágeis, débeis, delicadas
que as irei encaixar uma a uma, de mansinho
como quem cuida um bebé ou uma flor.

Mas do teu poema irado, furioso,
enlaçado ao de leve
nas frases singelas
que irei escrever
na hora da partida,
irá nascer uma nova História dos povos,
um novo GÊNESIS
onde a multidão
é todo o Mundo
e cada qual.

 

 

 

 

 

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