E vi a pantera dormir com o cabrito

Porque é sábado
parei a pensar o que hoje pensei.
E vi a pantera dormir com o cabrito.

E vi a pantera

 

Naquele dia sairá um ramo do tronco de Jessé e um rebento brotará das suas raízes. Sobre ele repousará o espírito do Senhor.
… O lobo viverá com o cordeiro e a pantera dormirá com o cabrito; o bezerro e o leãozinho andarão juntos e um menino os poderá conduzir.
A vitela e a ursa pastarão juntamente, suas crias dormirão lado a lado; e o leão comerá feno com o boi.
Livro de Isaías 11.

 

Esta madrugada aconteceu.
Sonho meu.
Liberei o pensamento
de teias, de tretas
e formatos,
de regras e retratos,
atirei as penas às urtigas
e deixei a pena correr.

Escutado por gaivotas,
sem papel onde escrever,
tendo as nuvens como tela
e o céu como horizonte,
desligado
de lobos e cordeiros,
de gentes e memórias,
ó que estórias
a pena me contou!

Sem noção
do tempo e do espaço,
mergulho fascinado
nessa toca
abençoada
de onde jorra
leite e mel.
Nela me aconchego
nesse escuro
tranquilo
onde escuto,
ainda sem a ver,
aquela serena melodia
com que minha  Mãe
me adormecia.

Desligado
de gentes e memórias,
buscando a solidão,
sou erguido
a brincar
com os silêncios
no topo da árvore
mais alta
do meu quintal.
Aceito da pena o desafio
de desfolhar
a sebe dos canteiros
buscando caracóis,
que pagos a tostão.
Mas sonhando,
não o que comprar
mas na rosa encarnada,
colhida para te dar.

Logo mais,
nesse deserto,
despido de lobos e cordeiros
para onde
a pena me arrastou,
caminhando
sobre o nada absoluto,
no silêncio da procura
do que sou,
de onde venho,
para onde vou,
descobri enfeitiçado
que solidão e o silencio
só valem se na busca da verdade.

Ó bendita pena
que deixei correr,
livre de teias
de tretas e formatos.
Olhando o céu
ela me concede a liberdade
virando as solidões
em gente
e os silêncios
em histórias incarnadas.
Contemplo-te, escuto-te,
encontro-te  no que és
sem farsas,
sem medos nem rodeios.
Vejo brotar
das raízes comuns
que partilhamos
rebentos geradores
de vida e de futuro.

É deste limiar escatológico,
no rodopiar
para um buraco negro
sem regresso,
que te convido a brincar
às gentes, às memórias,
às histórias de encantar.
Tu mais eu
mais todos quantos saem
do tronco de Jessé,
de perto ou de distante,
do outro ou deste lado
desse mar profundo,
será com nossos atos e afetos
que o iremos separar.

E num novo Mundo de concórdia
a Paz será connosco

e

… O lobo viverá com o cordeiro e a pantera dormirá com o cabrito;           o bezerro e o leãozinho andarão juntos e um menino os poderá conduzir.
A vitela e a ursa pastarão juntamente, suas crias dormirão lado a lado; e o leão comerá feno com o boi.

 

 

 

 

 

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