E olhei o passeio asseado da minha rua

Porque hoje é sábado
parei a pensar o que hoje pensei.
E olhei o passeio asseado da minha rua.

E olhei o passeio asseado da minha rua

Quando uma criança sobreviveu à guerra e depois sobreviveu a um naufrágio, quando se perdeu dos pais e nem sabe se ainda tem família, tem de aparecer um adulto que perceba que tem de começar por lhe lembrar que é uma criança… Uma criança refugiada não se salva com comida, é preciso dar-lhe colo.
Lora Pappa. Grega fundadora da METAdrasi para ajudar as crianças que sobrevivem às guerras e se perderam dos pais a começar de novo.

 

Valeu?

Por mim, por ti,
por aquele que sem notares
cruzou hoje contigo,
por toda essa gente que passeia
no passeio asseado
do outro lado da minha rua,
pela criança que ontem nasceu de parto natural,
pelo velho que morreu hoje,
para seu bem ou por seu mal,
pelos que ficam, pelos que vão,
pelos filhos que já tive e ainda estão,
pelos meus e teus
aconchegados netos e bisnetos,
chegou a hora.
Alfa e ómega do ser e do viver.

Esgotei a vontade de escrever.

Tomei hoje a decisão
mais importante da minha vida.
Meti a poesia na gaveta.
Que esta treta de sonhar
com a aurora boreal
chegou ao fim.

Pobre de mim
que andei a fingir aos viandantes,
feito profeta da ventura e da esperança,
imaginando a criança que já fui
e a aquela que julgava
ainda saber
o que era ser criança.
Com colo e tudo.

Até quando?

Mas esta madrugada
no passeio asseado
do outro lado da minha rua,
uma criança de olhar triste,
passa por mim e sorri.
Ó sorriso que não aguentei.

E nessa madrugada
de chuva e trovoada
tomei a decisão
mais importante da minha vida.
Recolher os cacos dessas tretas
que espalhei pelo passeio encharcado
do outro lado da minha rua.

E contigo, comigo,
com os meus e teus amigos,
os filhos que ainda estão,
os meus e teus
aconchegados netos e bisnetos,
o meu e o teu próximo,
aquele que ainda sonhou a noite que passou,
vamos reconstruir a ânfora de alabastro
onde como por magia,
veremos converter
a lama apodrecida e pestilenta,
em água cristalina, pura, transparente,
palavras obscenas, desconjuntas,
em pura poesia.

Valeu?

 

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