E pensei no que vou ser quando for grande

Porque hoje é sábado e é Natal,
parei a pensar o que hoje pensei.
E pensei no que vou ser quando for grande.

Quando fores grande_2

Tudo o que dorme é criança de novo
Fernando Pessoa

Vagueando sobre o mundo dos vivos,
olhando bombas e miosótis pelo ar,
caminho descalço
despido do belo e do perverso
que já fui e ainda sou,
sacudo o pó dos pés,
paro para pensar
e perguntar-me:
o que queres tu ser
quando fores grande?

Da memória guardada numa arca
que minha Mãe colocou
no sapatinho
em distante madrugada,
retirei nacos de história
não só minha nem só tua,
mas de tantos já distantes
que deixaram outros Natais
essas marcas bem visíveis
no que sou e no que és.

E na memória guardada
num canto escondido dessa arca
que minha Mãe me deixou
em distante madrugada
desencantei fascinado
a resposta desejada.
Ei-la.

Quando for grande
quero ser anjo e ser poeta,
ser balão, papagaio ou estorninho,
ser milhafre gigante ou passarinho
para voar  sobre campos de batalha,
sobre palácios, favelas, quarteirões,
sobre canseiras, tristezas e sucessos,
sobre mágoas,  banquetes, despedidas,
sobre ternuras cruzadas dos regressos,
sobre os sós, os derrotados, os campeões,
os convencidos e os que vivem de ilusões.

Vagueando sobre o mundo dos vivos
quero ser  grande para ser anjo e ser poeta
e colocar a cada um, cada Natal
essa pergunta estranha, essencial:

O que sou? De onde venho? Para onde vou?
O que quero ser eu quando for grande?

 

 

 

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