Fingi que pensei

Porque hoje é sábado,
parei a pensar o que hoje pensei.
E fingi que pensei.

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
Fernando Pessoa

Que digo eu

Sabeis o que me apetece
ao ver o mundo a ruir?
Encarar o que acontece
como se fosse a fingir.

E quando o dia amanhece
sem lugar para onde ir,
logo encaro o que acontece
como se fosse a fingir.

Se o político enrouquece
de tantas mágoas carpir,
logo encaro o que acontece
como se fosse a fingir.

Se pouca gente enriquece
e são tantos a tinir,
logo encaro o que acontece
como se fosse a fingir.

E quando o povo emudece
com vontade de bramir,
logo encaro o que acontece
como se fosse a fingir.

Mas não é.
Olha que não.

Porque a dor que a gente sente
seja neutro ou seja crente,
analfabeto ou letrado,
polido ou cultivador,
é destino permanente
deste povo fingidor.

 


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4 Responses to Fingi que pensei

  1. Maria Margarida R.Araújo says:

    Povo fingidor e sofredor silencioso…
    Obrigada por este poema que retrata a actualidade.

    Saúde e felicidade para ti e toda a família
    Mª Margarida

  2. josé lourenço castro says:

    Mais um excelente poema de sábado.
    Continua por favor meu amigo e que Deus te guarde
    Um abraço
    Lourenço

  3. José M Elias says:

    De tanto fingir, fingimos viver a vida que fingimos ter…mas tal como o poeta também nós não podemos viver a fingir nem fingir viver o todo sempre, e por isso vivamos a nossa vida como disse a Madre Teresa de Calcutá «Faz o teu trabalho como se tudo dependesse de ti e espera os resultados com se tudo dependesse de Deus».

    Muito obrigado
    Forte abraço
    JE

  4. filipa reis says:

    tio este poema é maravilhoso mas os teus poemas são sempre maravilhsos

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