Tudo o resto são trocos

Porque hoje é sábado
parei a pensar o que hoje pensei.
E pensei fundo.

 

Maria José Nogueira Pinto termina a sua última crónica desta maneira:
“Estou agora num combate mais pessoal contra um inimigo subtil, silencioso, traiçoeiro.
Neste combate conto com a ciência dos homens e com a Graça de Deus, Pai de nós todos, para não ter medo. E também com a família e com os amigos.  Esperando o pior, mas confiando no melhor.
Seja qual for o desfecho, como o Senhor é meu pastor, nada me faltará.”

Como é bela a descoberta da alma.
O essencial está dito.  Tudo o resto são trocos.

Apetece-me acrescentar-lhe um desabafo
escrito em momento difícil do passado:

Se vires a flor maravilha
a morrer,
deixa correr.

O homem
que passa por ti
apressado,
que vive sem fome
mas morre sem nome,
vale todas as flores do teu jardim
e mais uma.

Se vires a pintura rupestre
a afundar,
deixa andar.
O jovem calado
que passa a teu lado,
bocado de sonho,
bocado de busca,
bocado de enfado,
vale toda a pintura
de todas as grutas  da terra
e mais uma.

Se vires o veado
a fugir
ferido de morte,
deixa-o ir.
O bébé nascido
a noite passada
de parto normal,
afinal
vale o que vale.
Mas vale toda a fera
do mundo selvagem
e mais uma.

Se ouvires o canto do cisne
a finar,
deixa andar.
O avô
sentado a jogar
no jardim,
vale todos
os cantos do cisne
de todos os lagos
do mundo
e mais um.

Já vi a flor maravilha a morrer,
a pintura rupestre a afundar
o veado ferido a fugir
o canto do cisne a finar.

Também eu
nesse tempo pensava
que só isso contava.

Até que a noite caiu.

Após a noite mais longa
e a dor mais profunda
do mundo,
nessa manhã,
deixou de importar
a flor
a pintura
o veado
e o cisne.

Podes crer meu irmão.

Ao ver
aqueles que partem
no homem que passa,
ao sonhar
com aqueles que partem
no jovem que sonha
ao nascer
com aqueles que partem
na criança que nasce
ao jogar
com aqueles que partem
no velho que joga
projeto
aqueles que ficam
naqueles que vão.

E quando eu partir,
meu irmão
deixa-me ir.

Não chores por mim.

Agarra
o amor
que deixei.

Ele vale bem
a flor maravilha
que plantei
no teu jardim.

 

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11 Responses to Tudo o resto são trocos

  1. Antonio Goncalves says:

    Um grande abraço ao genial poeta.

  2. Almor Viegas says:

    Valeu bem a pena, amigo, parar para pensar o pensado. Abraço. AV

  3. José Lourenço Castro says:

    É, mais uma vez, uma bela poesia , que, desta vez, creio ser dedicada a uma pessoa também muito bela de alma e com um enorme coração, que deixou em todos nós uma grande saudade, a Maria José Nogueira Pinto.
    Obrigado Paulo e um abraço amigo
    Lourenço

  4. Orlando Correia says:

    Foi realmente uma grande Senhora. Não é possível ficar indiferente à sua precoce morte.
    O teu Poema, contudo, remete- e consegue – para uma latitude tão densa e abrangente que, para além, fica coisa pouca. Belo Poema. Parabéns Paulo.
    Um abraço.
    Orlando

  5. Guilherme Pedrosa Moreira says:

    O teu poema é um grito angustiado de dor lancinante, só comparável à dor da mãe que perde um filho. Tens toda a razão. Se continuarmos mentalmente o teu poema, concluímos, como fizeste, que a dor da perda de um ente querido não se compara às tragédias que nos rodeiam, por maiores que elas sejam.

    Um grande abraço para ti.

    Guilherme

  6. Augusto Cunha says:

    Um dos mais belos poemas teus que já li. Um abraço de parabens.

  7. Maria Manuela says:

    Lindo! Com uma mensagem profunda, uma lição de vida.

  8. Maria José Trigueiros Cunha (Zezinha Sousa Pinto) says:

    Tio: Adoro poesia. É impossível ficar indiferente a este poema. É de uma sensibilidade ….. arrepiante.
    Não pude deixar de lhe escrever a dar-lhe os parabéns.
    Bem Haja!
    Zezinha

    • Bill Perry says:

      Ao amanhacer eu estarei batendo as ruas da sua cidade a sua procura. Foram trinta e tanto anos, “Após a noite mais longa e a dor mais profunda do mundo”, eu estarei reunido com Beatrice — “Agarra o amor que deixei”. The true power of poetry, my dear old friend Zezinha, is when it intertwines with life sparking adventures one never dreamed of before. To you and yours I owe you this:
      “Como é bela a descoberta da alma.
      O essencial está dito. Tudo o resto são trocos.”

      Love Always,
      William Commodore Perry (Billzinho).

  9. Manuel Paulo says:

    Que mais posso eu acrescentar às vossas palavras?
    Que o nosso mundo – sobretudo o mais próximo – não é o ideal.
    Mas não está tão mal como no-lo querem vender.
    Manuel Paulo

  10. Maria Margarida R.Araújo says:

    Ao fim de tantos anos reencontrar um amigo é muito gratificante mas conhece-lo através da sua poesia é emocionante.
    Parabéns POETA
    Margarida

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