Sem mais. Tal qual sou.

Porque hoje é sábado
parei a pensar o que hoje pensei.
E olhei-me. Sem mais. Tal qual sou.

Num muro sujo da minha rua encontrei, fascinado, este retrato.
Nem datado nem assinado.
Que genial maneira de recuperar tanto lixo que nos rodeia.
E que vontade de usá-la como desforra contra o lixo que alguns poucos
nos atiraram.

Descobri este retrato,
olhei-me e reconheci-me.

Sem mais. Tal qual sou.
Um punhado de ilusões.
Uma mão cheia de fantasia.
Um balouçar
entre o tédio e a alegria,
entre o dever e a utopia,
entre a farsa e a euforia.
Com muito trambolhão
à mistura
e também
alguma sabedoria.

Sem mais. Tal qual sou.
Um monte de contradições.

Tudo isto revestido
com um hábito de monge,
à Franciscana,
trazendo por baixo
camisa e gravata
à semana,
camisa sem gravata
em dia do Senhor,
chapéu de coco
com gente importante,
um ar distraído
com gente distante,
semblante soturno
em dia de dor,
fingindo um ar terno

Mil vezes tentei reagir.

Certo dia
peguei o touro pelos cornos,
dei um murro na mesa,
defini os contornos
das minhas contradições
e gritei:

Viva a liberdade
de querer o que não sei.

No dia seguinte
acordei virado
para o mesmo lado,
com a mesa sem marcas
do murro que dei,
sem rasto no peito
dos cornos do touro,
buscando o tesouro
no trono do rei.

Vesti de novo
o hábito de monge,
sem nada por baixo.

E no meio do povo
que nada entendia
da minha alegria
cantei:

Viva o poeta em dia de dor.
Viva a gravata em noite de amor.
Viva o chapéu em dia de semana
e morra tanta gente imponente
vestida à Franciscana.

Poema Autoretrato publicado em Ponto Final

 

 

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7 Responses to Sem mais. Tal qual sou.

  1. maria manuela says:

    A tua poesia é uma mensagem de humanidade revestida pela beleza da palvra poética

    • José Lourenço Castro says:

      Hoje,sábado, entrou uma lufada de ar fresco em minha casa através do meu computador com a tua bela poesia. Obrigado meu amigo e muita saúde para ti e para os teus. Aguardo ansiosamente o próximo sábado. Parabens!
      Um abraço
      Lourenço

  2. Claudia Cunha says:

    Olá Pai, foi bom reler este texto
    um bj grande
    Claudia

  3. Rui Cunha says:

    Aos poucos estou a conhecer um outro Tio Paulo que nunca até agora tinha conhecido.
    Há realmente algo muito especial naquele homem apressado com várias pastas que aprecio da janela a fazer a esquina do Lima 5.
    O face no muro sujo, esse já eu conhecia.
    Abraço,
    Rui Cunha

  4. Maria Margarida R.Araújo says:

    A tua poesia revela a profundidade do teu ser…
    Margarida

  5. Orlando Correia says:

    Caro Paulo:
    Falta-me “engenho e arte” para esboçar qualquer análise crítica no sentido habitual do termo. Ou seja, não tenho o jeito literário necessário para expressar as sensações que um poema nos provoca. Mas uma convicção tenho: O de que saberei onde está o profundo e o belo. E este é mais um.
    Obrgado e parabéns, Paulo.
    Um Abraço

  6. Paulo Ferreira says:

    Não podia deixar passar em vão a alegria de ter encontrado esta sua pagina.
    Adoro a sua escrita, os meus parabens….

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