Tempo restante

Porque hoje é sábado
parei a pensar o que hoje pensei.
E pensei alto.

Em tempos,
julguei que a dor
comandava a tristeza,
o medo o pavor,
a arte a beleza,
o sonho o amor.

O tempo ensinou-me
que é o tempo
quem tudo governa.
O sonho, a beleza,
o medo, a tristeza.

Mas o tempo
só não é dono da saudade.

E pensei alto:

Não sei
se por fama ou magia
impus outro dia
ao tempo parar.

E o tempo
acatou.

Deixou-me escolher
que fazer
ao tempo parado.

Ou voltar
buscando o passado
ou seguir
prevendo o além.

Deixei
que o tempo
marcasse
o tempo que eu tinha.

O tempo
que o tempo me deu
era pouco.

Qual louco sem rumo,
que o tempo
que o tempo me dava
não dava sequer
p´ra provar
esse beijo gostoso,
esse sonho ditoso
que virou o futuro.

Cabeça na areia,
forçava também
esquecer do passado
aquele momento
medonho
de dor.

Entretanto,
prever o além
era o tempo
de um ai.

Fracção
de segundo.

O tempo
dum sopro de vento
antes de ir
para o Pai.

Hesitei.
Hesitei.

O além
era certo.

O passado
um naco de broa
há muito provado.

Tomara
que alguém
escolhesse
por mim.

………………………

Dei por mim
a aceitar
do passado
o melhor e o pior,
o mais belo e o medonho
em busca de Paz.

Busquei
do passado
um momento fugaz,
que o além é seguro.

E no tempo
que o tempo me deu
no regresso ao passado
retomaste comigo
onde estava
a conversa serena
de noite distante.

E valeu a pena.

………………………………………..

Dei tempo
ao tempo acordar-me.

Do sonho passado,
além do recesso
naco de broa
festejo
o regresso ao presente,
pacificado.

Destempo em Arca da Aliança

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5 Responses to Tempo restante

  1. maria manuela says:

    Olá Paulo
    Tenho seguido os teus “Porque Hoje é Sábado”.Parabéns pela iniciativa; parabéns por pores a poesia nas asas da Internt; parabéns pela tua arte.

    Um abraço
    Manuela

  2. José Lourenço Castro says:

    É um poema muito belo!
    Obrigado, saúde e um abraço
    Lourenço

  3. JOMI says:

    Um profundo e sentido aotoretrato. O “ostinato rítmico” com a palavra “tempo” dá ao poema uma força que magoa…
    Digno de ser musicado por um compositor ao nível da tua escrita.
    Continua a a dar-nos tão belos poemas. Para quando mais um livro?

  4. José Elias says:

    Que belo foi o tempo, em que acatando parar, me deixou saborear as belas palavras de passado, presente e futuro, de quem tem não só o tempo mas a arte do tempo e nos brinda com momentos de puro prazer.
    Bem haja
    Abraço JE

  5. Claudia Cunha says:

    Obrigada Pai :)
    Um bj

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